Todo início de ano, dezenas de ônibus, em condições super precárias, descarregam centenas de nordestinos nos territórios da região sudeste do Brasil, em especial no estado de São Paulo.
Eles vêm para trabalhar na lavoura da cana de açúcar e na colheita da laranja. Chegam, na maioria das vezes, sem ter onde morar, o que comer; para falar a verdade, acredito que nem sabem onde estão. Mas uma coisa é certa: os seus desejos são, sem dúvida, enriquecer, voltar para a terra natal e reencontrar a família.
Nunca esqueço o dia em que passava de ônibus em frente a um alojamento de trabalhadores rurais, que fica ao lado de uma usina de àlcool, e vi aquela enorme fila de homens, a maioria de estatura baixa e cor negra, um a um esperando sua vez para usar um único telefone público. Certamente para falar com seus pais, esposas e filhos, que estão a mais de dois mil quilômetros de distância.
Alguns conseguem, com muito esforço, não mais que uma motocicleta; outros, mais infelizes, somente algumas peças de roupas e outros pormenores. Seus maiores sonhos: dar uma educação de qualidade aos seus filhos.
Quando chegam aqui, acreditam "terem ganhado na loteria". Loteria coisa nenhuma! O sofrimento está apenas começando. Vivem em condições subumanas, trabalho duro, cujo esforço físico é incessante, envelhecimento precoce, perda da vitalidade dos músculos entre outros. Sofrem com o frio, afinal, no nordeste é calor o ano inteiro. O pior de tudo é que não têm a quem recorrer; estão longe de casa, do apoio dos familiares, desprotegidos e com uma única arma: a esperança. Esperança de mudar de vida.
"Eita povo trabalhador que sofre!" Mas é povo e deve ser tratado com respeito.
Patrícia Serra

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